terça-feira, 25 de julho de 2017

"Valerá a pena manter o jornal?"

Há dias, uma assinante do Sopé da Montanha, que se encontra de férias, perguntou-me se recebia alguma coisa pelo meu trabalho como director do jornal. Fê-lo na sequência da conversa que ambos mantivemos sobre o trabalho que dá manter um jornal paroquial há perto de 23 anos.
Respondi à simpática pessoa que recebia muitas, muitas coisas.
- Recebo muitas e muitas  horas extra por mês, que tiro ao meu legítimo descanso;
- Recebo preocupações, incompreensões, críticas injustas, protestos descabidos;
- Recebo necessidade de dar ao dedo e à língua, pois, cada mês, são necessárias umas tantas chamadas, mais uns quantos emails, vários contactos com diferentes pessoas;
- Recebo chatices com as burocracias, pois as exigências da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) nunca param, além de outras, claro;
- Recebo despesas (deslocações, contactos, papel, computador, máquina fotográfica, várias burocracias que vou pagando do meu bolso, etc);
- Recebo a necessidade de escrever sobre o que é preciso escrever-se e não sobre aquilo que gostaria de escrever;
- Recebo momentos de exaltação e de perda de paciência quando as coisas não correm bem. Nem imaginam o que é escrever textos que nos são enviados à mão ou ainda à maquina de escrever, ambos com acrescentos e rasuras, onde é preciso dar atenção a cada palavrinha do texto para procurar manter a fidelidade ao original;
 - Recebo horas  de trabalhos por mês com o Diretor-Adjunto, tendo em conta a composição do jornal. Digo que admiro a paciência para me aturar, nestas alturas, do Diretor-Adjunto. Não é fácil. Mudar de secção o artigo tal, dar mais relevo ao texto tal, mudar de letra neste texto, criar fundo naquele, organizar tudo para que caiba mais esta notícia que chegou à última hora, etc, etc;
- Recebo indiferenças da comunidade que pensa que o jornal é meu, quando é da comunidade paroquial. Como em muitas coisas, é mais fácil ficar a observar do que dar o corpo ao manifesto... As pessoas participam pouco e exigem muito;
- Recebo o egoísmo daqueles que pensam que o jornal tem que ter sempre as portas escancaradas para si e suas coisas, porque nada mais enxergam para além de si;
- Recebo despesas, nunca lucros. Jamais ganhei um tostão que fosse com o jornal. Pelo contrário...
- Recebo muitos nãos de alguns que dizem sim, mas depois o trabalho combinado não aparece e lá tenho que "me desenrascar".


A pessoa com quem conversava, faz-me então uma pergunta: "Valerá a pena manter o jornal?"
De imediato, respondi que sim. E justifiquei:
- Um filho nunca se abandona, quer nos momentos em que nos dá alegrias, quer quando nos dá despesas, aflições, incompreensões. Criei-o há perto de 24 anos para servir a comunidade paroquial tarouquense. Enquanto for possível, lutarei por ele.
- Confio nas pessoas. E se há gente que é indiferente ao jornal ou não gosta dele, também existe muita gente disposta a lutar comigo pelo Sopé da Montanha como elemento integrante da vida da comunidade paroquial.
- O jornal é um embaixador desta comunidade nos quatro cantos do país e do mundo. E leva a paróquia, seus povos, suas gentes, sua história, seus projetos ao mundo.
- Tem muitas limitações advinda da minhas limitações e das  pessoas que o servem. Não agrada a todos, pois tem uma linha e um rumo, mas procura unir, formar, informar, servir.
- Tem uma equipa dedicadíssima ao seu serviço, desde o Diretor- Adjunto, passando pelo Administrador, continuando naqueles que nele escrevem, o vendem ou recebem as assinaturas. A generosidade, gratuitidade e cuidado desta gente é merecedora de toda a gratidão.


A senhora que me ouvia, concluiu com uma palavra de forte incentivo. "Força! Vão em frente. Não liguem "aos bota-abaixo". Nunca nos deixem órfãos do amigo que mensalmente nos visita. Obrigado por tudo."

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